Por Josie Zecchinelli
Psicóloga clínica (CRP 02/22549), fundadora do Instituto Maternidade Consciente e especialista em Saúde Mental Perinatal & Materna.
Na clínica perinatal, ao longo de mais de 23 anos acompanhando mulheres e famílias, escuto com frequência mães exaustas que vivem um dilema doloroso. De um lado, sentem-se criticadas quando colocam o bebê muito tempo no colo; de outro, sentem-se aprisionadas e sobrecarregadas por não conseguirem soltar o bebê nem por dez minutos para comer, tomar um banho ou realizar tarefas básicas da vida cotidiana.
Quem já teve um bebê recém-nascido nos braços conhece de perto o desafio de cuidar de um ser totalmente dependente, que pede presença constante, que chora ao menor sinal de afastamento e que quase nunca aceita ficar tranquilamente sozinho num berço ou carrinho. É exatamente nesse ponto de equilíbrio entre acolher o bebê e preservar a integridade da mulher que um recurso facilitador de colo ganha uma dimensão de saúde pública e cuidado emocional.
O papel do colo na saúde mental materna: Por que o pós-parto pesa tanto
O puerpério é uma travessia intensa, geralmente silenciosa aos olhos de quem está de fora, mas gritante para quem vive na pele. O corpo passa por transformações drásticas, as oscilações hormonais são abruptas, a privação de sono cobra a conta e a identidade da mulher é totalmente sacudida para dar espaço a uma nova configuração de vida.
Isso não é fraqueza, frescura ou incapacidade: é a proporção real e humana de tudo o que está acontecendo ao mesmo tempo, profundas transformações de vidas em simultâneo.
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Um dos padrões mais comuns que vejo no consultório é a mãe tentar minimizar o próprio sofrimento pensando: “Toda mulher passa por isso, por que para mim está tão pesado?” Esse tipo de comparação solitária só alimenta a culpa e afasta a mulher da possibilidade de pedir ajuda ou de encontrar recursos que tornem o cotidiano mais viável. É importante compreender o puerpério para entendermos questões estruturais que o tornam mais pesado e, ao cuidarmos dessa estrutura, interna e externa, da vida de uma mãe, possibilitamos uma realidade menos pesada, o mais leve possível.
O que a ciência demonstra sobre o colo e a corregulação
O contato pele a pele e o ato de carregar junto ao corpo não servem apenas para consolo momentâneo do bebê: tratam-se de momentos de fisiologia pura acontecendo entre corpos e psiquismos da mãe e do bebê.
A pesquisa clássica de Hunziker e Barr, publicada na revista internacional Pediatrics, demonstrou que bebês carregados no colo ao longo do dia apresentavam uma redução de 43% de frequência de choro diário total e de 51% no choro característico do fim da tarde e início da noite.
O motivo disso é simples: o recém-nascido ainda não tem maturidade neurológica para interferir em mecanismos muito básicos de regulação do seu estado corporal, como por exemplo a regulação da sua temperatura. Ele precisa do corpo de quem cuida como um organizador externo que interfere diretamente em seu sistema nervoso, facilitando que este consiga realizar uma série de ações necessárias para sua sobrevivência e que seu corpinho ainda está desenvolvendo para ser capaz de fazer sozinho.
Estar aconchegado ao peito diminui o cortisol (o hormônio do estresse) no bebê e ajusta o ritmo respiratório quando há situações que geram alteração emocional nele, gerando uma sensação de segurança primária. O corpo da mãe (a temperatura do seu corpo, seus batimentos cardíacos, seu cheiro, sua respiração ritmada) é o que comunica ao cérebro do bebê, através do contato físico, o que o organismo dele precisa fazer para estar em equilíbrio, se regular, se acalmar, dormir e sentir segurança.
A regulação emocional da mulher e o ganho de liberdade
Existe um outro lado dessa equação que raramente recebe o devido destaque: o benefício do colo para a própria mãe.
Muitas mulheres sentem uma necessidade forte de manter o filho perto. Essa necessidade de proximidade física também está conectada aos mecanismos que a gestação, o parto e a amamentação criam no cérebro e no corpo da mãe para facilitar o cuidado do bebê: traz mais segurança para ler os sinais do bebê mais rápido, facilita a amamentação sem a necessidade de passar o dia inteiro confinada a uma cama ou sofá, estimula a produção de ocitocina e fortalece o vínculo de apego.
É aqui que os carregadores ergonômicos e slings funcionam como uma verdadeira ponte. Um carregador bem ajustado respeita o corpo do bebê e devolve os braços e as mãos livres da mãe. Isso significa autonomia para almoçar com calma, caminhar ao ar livre, atender outro filho pequeno, trabalhar ou simplesmente se movimentar pela casa sem carregar a criança no cansaço dos braços por horas seguidas.
Na minha experiência pessoal e profissional, vejo os slings como recursos que reduzem fortemente a sensação de privação e aprisionamento que a maternidade impõe nos primeiros anos, sem que a mãe precise abrir mão da proximidade com o filho.
Poder atender às demandas do bebê mantendo mobilidade e liberdade física eleva a autoeficácia da mulher (sensação de ser capaz) e diminui sobrecargas desnecessárias. Reduzir estressores no dia a dia é reduzir estresse crônico, e reduzir estresse é prevenir adoecimentos na vida da mãe, do bebê e de toda a família.
Vale lembrar que o uso do carregador deve ser sempre um facilitador consciente, nunca uma obrigação rígida. Algumas mães precisam de tempo e paciência para encontrar o modelo que melhor se adapta à sua rotina e ao seu corpo, e buscar orientação prática sobre a posição ergonômica correta faz toda a diferença nessa adaptação. Se você sente que está sendo um desafio iniciar o uso de sling ou carregador com seu bebê, não deixe de procurar apoio de consultoria especializada para poder encontrar a melhor maneira de se ajustar.
Pequenos hábitos que sustentam a saúde mental materna no dia a dia
Cuidar de um bebê é uma tarefa que nos custa muito, um custo físico real que afeta também nosso sistema nervoso e facilmente nos esgota. Atitudes práticas que podem parecer coisas pequenas diante do tanto de necessidades e desafios, mas que realmente ajudam a reduzir sobrecarga e possibilitam você gradativamente “recarregar sua bateria”:
- Direcionar pedidos de ajuda: Em vez de esperar que a rede de apoio adivinhe o que você precisa, peça tarefas específicas (levar uma refeição pronta, lavar a louça, cuidar da roupa limpa ou segurar o bebê por 40 minutos para que você tome um banho sem pressa). Pedir ajuda é um desafio porque frequentemente traz desconfortos, conflitos ou pitacos, e facilmente deixamos de pedir para evitar situações assim. No entanto, é importante trabalhar isso, algo que a psicoterapia pode ajudar a fazer: desenvolver suas habilidades de comunicação e trabalhar suas questões emocionais para conseguir efetivamente pedir e receber ajuda, porque é fato que você precisa de apoio.
- Descansar sem regras rígidas: Aproveite intervalos para deitar e fechar os olhos, mesmo que seja fora dos horários tradicionais de sono. O cérebro materno precisa de pausas de desaceleração. Nem sempre conseguimos dormir, mas há outras formas de descansar. Além disso, às vezes não conseguimos dormir porque acreditamos que tudo o mais é prioridade ou porque o corpo não desliga. Selecione o que de verdade não pode ser adiado e veja o que não pode estar acima de sua saúde. Busque criar rituais que facilitem seu corpo relaxar e sua cabeça desligar. Geralmente, relaxar o corpo ajuda a relaxar a mente.
- Aproveitar o colo inteligente: Usar o sling em momentos estratégicos (como nas crises do fim de tarde, na hora de fazer uma refeição ou durante um passeio na rua) acalma o bebê e preserva a sua coluna e energia. Lembre-se: energia do corpo também é saúde mental!
- Ter com quem desabafar com honestidade: Mantenha contato com pelo menos uma pessoa de confiança (parceiro, amiga ou terapeuta) com quem você possa falar a verdade sobre o que está sentindo, sem o filtro de ter que se mostrar forte ou realizada o tempo todo. Grupos de apoio entre mães também costumam ajudar bastante a normalizar sentimentos e sensações e a amenizar os sentimentos de solidão e de esgotamento, além de ajudar a encontrar recursos de apoio. O grupo de apoio é uma forma de prevenir adoecimentos psíquicos e pode ajudar também durante o tratamento de qualquer condição de saúde mental. Aqui você encontra indicação de alguns grupos de apoio gratuitos e online que podem fazer toda a diferença e trazem temas que se relacionam ao que você possa estar vivendo nesse momento de sua vida.
O papel do colo na saúde mental materna: Quando vale a pena buscar apoio profissional?
Nem todo dia difícil no pós-parto indica um transtorno, mas alguns sinais exigem olhar cuidadoso e avaliação especializada:
- Tristeza persistente, choro frequente, desespero ou irritabilidade constante que continuam além das primeiras duas semanas após o parto.
- Sensação de vazio, apatia ou dificuldade marcante de sentir conexão afetiva com o bebê, que não se resolve com descanso.
- Ansiedade paralisante, pensamentos involuntários de medo de que algo terrível vá acontecer ou culpa excessiva que rouba a paz. Pensamentos recorrentes sobre algo que tenha acontecido no parto ou pós-parto também são sinais de alerta, pois podem ser resultado de uma experiência traumática.
Como a saúde física e as condições do corpo também afetam a saúde mental, esteja muito atenta ao seu sono. Se não estiver conseguindo dormir ou se estiver muito “produtiva” mesmo dormindo muito pouco (menos de 5 a 6 horas de sono por noite não deve ser visto como normal), se dorme pouco e não consegue dormir em nenhum momento do dia, mesmo tendo ajuda para isso ou quando o bebê dorme, não espere mais: procure ajuda de um profissional de saúde para te ajudar a melhorar a qualidade e a quantidade de horas de sono.
Mesmo que dormir menos seja algo que faça parte do puerpério, não significa que devamos aceitar a insônia como algo normal. A privação de sono é um dos maiores fatores de risco para desenvolver transtornos mentais no puerpério, inclusive quadros mais graves. Se o profissional de saúde que você procurar não valorizar sua queixa de sono e não te ajudar a melhorar sua situação, busque outro; não aceite isso como algo corriqueiro.
Buscar apoio psicológico perinatal não é sinal de falha pessoal nem de falta de amor: é um ato legítimo de proteção e responsabilidade consigo mesma e com o seu filho. Você não precisa de um diagnóstico para buscar ajuda profissional e nem de algo extremo acontecendo. Se está difícil, se te faz sofrer e se causa prejuízo de alguma forma no seu cotidiano, é suficiente para buscar apoio, seja com um psicólogo, psiquiatra ou outro profissional de saúde especialista em gestação e puerpério. Não adie o seu cuidado. É mais fácil reduzir danos quando tratamos o sofrimento desde o começo, evitando que se torne algo maior e mais prejudicial.
Perguntas frequentes
É normal sentir tristeza depois do parto?
Sim. Cerca de 80% das mulheres vivenciam o chamado baby blues (disforia pós-parto), um estado transitório de sensibilidade emocional, choro fácil e oscilação de humor provocado pela queda hormonal e pelo cansaço dos primeiros dias. Esse quadro costuma atingir o ápice por volta do quinto dia e regredir sozinho em até duas semanas.
Se os sintomas ultrapassarem esse período das duas primeiras semanas após o nascimento de seu bebê, ou mesmo antes disso começarem a comprometer os cuidados básicos e a sua qualidade de vida, é fundamental buscar avaliação de um profissional especializado em saúde mental perinatal. A tristeza pode vir por inúmeras razões, e podemos normalizar que alguma dose de tristeza esteja presente num momento de tantas mudanças ao mesmo tempo. No entanto, prevenir é o melhor caminho e por isso sempre vale a pena ter acompanhamento profissional quando passamos por profundas transformações, porque mudança pode significar crises e sofrimentos, e sozinha pode ser mais difícil reconhecer nossos limites e necessidades antes de adoecermos.
Carregar o bebê no colo ou no sling com frequência pode “mal-acostumar”?
Não. Esse é um dos maiores mitos da nossa cultura. Nos primeiros meses de vida, o bebê vive uma fase de gestação fora do útero (a exterogestação) e necessita de calor, contenção e batimentos cardíacos da mãe próximos ao corpinho para se sentir seguro. O colo não cria dependência prejudicial: pelo contrário, bebês que recebem acolhimento e presença responsiva constroem uma base emocional segura e desenvolvem muito mais confiança e autonomia quando começam a explorar o mundo.
Como diferenciar o baby blues da depressão pós-parto?
A diferença principal está na duração e na gravidade dos sintomas. O baby blues é passageiro, suave, não incapacita a mãe e melhora espontaneamente em até duas semanas com apoio e repouso. Já a depressão pós-parto/perinatal pode surgir em qualquer momento durante o primeiro ano de vida do bebê (pode ter se iniciado até mesmo na gestação), apresentando tristeza contínua, perda de interesse pelas coisas que te davam prazer, sensação de incapacidade, insônia mesmo quando o bebê dorme e isolamento social.
Nem todos os sintomas têm que aparecer juntos: esteja mais atenta ao seu nível de cansaço, de desânimo, de irritabilidade e de perda do prazer de fazer as coisas, que são sinais mais comuns no puerpério e podem surgir mesmo sem que haja uma sensação de tristeza muito evidente. Trata-se de um quadro de saúde que tem tratamento eficaz e precisa de acolhimento ético e especializado.
Nem sempre é necessário o uso de medicação; uma psicoterapia adequada, com especialista em saúde mental perinatal ou psicologia perinatal, pode ser bastante eficaz mesmo sem remédios. Mas, por este período ser complexo e envolver muitas mudanças simultâneas, com pouco tempo e poucos recursos para muitas mulheres, ou mesmo pela dificuldade de acessar bons profissionais perto de casa, às vezes a medicação é um caminho mais imediato para trazer alívio até que outras medidas de cuidado possam ser implementadas com a regularidade necessária para realmente ajudar a mãe.
Muitas mães têm receio de usar medicamentos e também existe muito preconceito e desinformação sobre esse uso no período perinatal. Caso você precise fazer uso de medicamentos, pode avaliar você mesma informações seguras sobre o risco em relação a amamentar no portal e-lactancia.org (o site está em inglês e espanhol, mas basta ativar a tradução automática do seu navegador para ler tranquilamente em português).
É importante ter psicoeducação sobre as diferenças dos transtornos mentais nesse período da vida, encontrar profissionais especializados e ter acesso a um médico que conheça a adaptação de medicamentos para mães que amamentam, sem que seja preciso recomendar um desmame precoce. Há medicações que são totalmente compatíveis com a amamentação e muitas vezes precisamos ponderar o risco de ficar sem tratamento versus o risco do medicamento.
Frequentemente o risco de não tratar um sofrimento psíquico grave é muito maior do que o risco da medicação bem indicada, tanto para a mãe quanto para o bebê. Os sintomas depressivos podem ter relação com vários tipos de transtornos mentais, todos com tratamento, e sempre é melhor acolher e tratar o quanto antes, porque o adoecimento não cuidado afeta a mãe, o bebê e toda a família.
No Instituto Maternidade Consciente você encontra indicação de grupos de apoio gratuitos e acolhedores, facilitados por profissionais especializados e bem embasados nos temas que abordam, além de recursos de cuidado emocional e uma rede de indicação de profissionais especializados em saúde mental materna e perinatal. Lembre-se de que você não está só e, com o apoio adequado, vai se sentir melhor.
Sobre a Autora
Josie Zecchinelli é Psicóloga (CRP 02/22549), pós-graduanda em Neurociências, Educação e Desenvolvimento Infantil (PUCRS), especialista em Psicoterapia Corporal pelo Instituto Wilhelm Reich, capacitada em psicoterapia EMDR, com formação em Saúde Mental Materna e Perinatal pela Postpartum Support International e em Aleitamento Materno e Saúde Mental pelo Instituto Europeu de Saúde Mental Perinatal. Com mais de 23 anos de prática clínica dedicada ao cuidado de gestantes, mães e famílias, é a fundadora do Instituto Maternidade Consciente, espaço de formação profissional em saúde mental materna e perinatal e difusão de conteúdos e recursos de apoio baseados em evidências para uma maternidade com menos culpa, menos traumas e mais potência.





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