Ousadia certeira é a ousadia de um povo

Provavelmente você já ouviu falar sobre o sistema de castas na Índia. Não? Já sim. Vamos recapitular. O sistema de castas da Índia é uma divisão social importante não apenas na Índia, mas no Nepal e outros países e populações de religião Hindu. Casta é definida como grupo social hereditário, no qual a condição do indivíduo passa de pai para filho. Seus membros só podem se casar com pessoas da mesma casta.

Os diversos grupos de Castas na Índia são divididos em: os brâmanes que são sacerdotes e letrados que nasceram da cabeça do deus Brahma; os xátrias ou guerreiros, que nasceram dos braços de Brahma; os vaixás ou comerciantes, que nasceram das pernas de Brahma; e os sudras ou servos, camponeses, artesãos e operários, que nasceram dos pés de Brahma. À margem desta estrutura social, encontram-se os Dalits, que nasceram da poeira deixada pelos pés de Brahma. Conhecidos no passado como intocáveis, capazes de sujar uma pessoa apenas por tocar sua sombra, esse grupo vive há anos à margem da sociedade sofrendo todo tipo de preconceitos e ataques. “Párias ou Dalits”, cuja a tradução mais apropriada é classe “oprimida”, são definidos como os “rejeitados” ou “5ª casta” do sistema social e religioso hinduísta, incluindo também os índios aborígines e estrangeiros geralmente com a pele mais escura.

 

Família Dalit

 

Diferentemente do sistema de castas, no sistema de classes, as pessoas não nascem predestinadas à pobreza e segregação social. A cor da pele ou origem não dita quem você será e é permitida a mobilidade social. Bem, isso é o que dizem, mas quantas pessoas negras, descendentes de indígenas, filhos de pessoas que tiveram os piores trabalhos conseguem ascender nesse sistema que usa a lei para dizer que todos são iguais e têm os mesmos direitos? O mesmo sistema que também usa a lei para garantir que os ricos possam explorar os pobres e impedir que os pobres reajam contra os ricos. E por que não reagimos nas brechas?

Em 2010 Kumari Mayawati, uma mulher “dalit” foi eleita para governar o Estado mais populoso da Índia, Uttar Pradesh, cuja população é superior a 180 milhões de habitantes. Eleita pelo Partido Bahujan Samaj, defensor das castas baixas, ela fez oposição ao Partido do Congresso e isso assustou a dinastia Nehru-Ghandi (Sem parentesco com Mahatma Ghandi, apesar do sobrenome).

 

Kumari Mayawati

 

Apesar da eleição de uma mulher do partido defensor dos Dalits no estado mais populoso da Índia, os estupros de meninas Dalits e ataques vindos de todas os lados continuaram no país. Prova de que a luta tem que continuar e tem de ser feita por todos os meios possíveis. Em 2018 protestos grandiosos tomaram as ruas por conta da derrubada de uma estátua que simbolizava a luta pelos direitos dos Dalits. Em 2020 fortes protestos tomaram as ruas por conta de estupros contra meninas dessas populações.

Este texto não tem o intuito de informar a vocês sobre a situação política na Índia, mas de chamar a atenção para o fato de que em um país que se constituiu sob a ideia de não mobilidade social, onde a aceitação da sua condição faz parte da formação cultural, onde grande parte das meninas ainda é impedida de estudar para casar e servir às famílias dos maridos, têm ocorrido movimentos por todos os lados revolucionando a política e lutando nas ruas contra a opressão milenar, enquanto aqui no Brasil, munidos de todas as ferramentas de luta democrática disponíveis, estamos nós discutindo política de contenção de danos, voto no menos pior, enquanto companheiros e companheiras têm sido presos, perseguidos, impedidos de atuar nos seus sindicatos e colocando seus corpos e suas vidas na luta.

Não estamos em um sistema de castas, o que significa que podemos pleitear nosso lugar na política, no comando, na cúpula. Somos um país de trabalhadores, de tantas pessoas pobres em situação de insegurança alimentar que sequer sabem se terão a próxima refeição e muitos de nós se nega a cogitar o voto em um de nós. É o momento em que deveríamos sim estar clamando que mulheres que já dormiram na fila do posto de saúde com filho no braço se coloquem como candidatas. Que figuras pretas e faveladas se coloquem como candidatas. E que quando o capital despejar seu poder de mídia, de deboche e de fogo contra elas, que estejamos nós nas trincheiras ao seu lado, nas ruas, nas redes, nas filas dos postos. Acorda população pobre. Em um sistema de classes, ainda que na democracia burguesa, se vence na quantidade, e nós somos maioria. Não temos dinheiro, mas temos pernas, voz e liberdade de brigar por nós. Ainda não é hora de sentar e chorar o que poderia ter sido. Sejamos nós a protestar e a defender as nossas Kumari Mayawati que se levantam.

Autor: Giza Alexandre

Autor: Giza Alexandre

Filha de trabalhadores rurais, atualmente militante pela causa das mulheres negras e rurais, também atua contra o trabalho infantil, escravidão doméstica e escravidão no campo. Como escritora e roteirista já publicou livros, peças e ganhou o título de Diretora Executiva da Confederação Latino-americana de escritores, poetas e artistas do mundo. Produtora de conteúdo no canal no YouTube Giza Didática.

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